sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Os usos e abusos da Criação com Apego - PARTE I

Uma  coisa que me incomoda demais na blogosfera materna é a poluição que ela sofre do discurso da "criação com apego". Digo na blogosfera materna porque na vida real esse discurso ainda não é tão presente, caso contrário, as mães sofreriam infinitamente mais de culpa do que já sofrem e seriam mais expostas a competitividade do que já são. Também digo "poluição" porque vejo a criação com apego como uma instituição/uma escola de pensamento sobre criação de filhos que tem as práticas que difunde sempre como pano de fundo nas diferentes polêmicas que surgem no  meio materno, atrapalhando e tornando superficial o tratamento de questões que deveriam ser encaradas com mais profundidade, além de invisibilizar outras tantas questões importantes já que não fazem parte do pacote de tarefas a serem desempenhadas pelas mães.

Quando eu fiquei grávida eu não havia ouvido falar em criação com apego. Naquela época eu estava muito preocupada com o momento do nascimento da minha filha e portanto o pouco tempo que tinha para pesquisar eu usava para saber mais sobre parto. É interessante eu usar aqui o termo "pesquisar", pois se trata disso mesmo. As informações sobre parto humanizado, como sabemos, não são disponíveis, uma vez que não é de interesse dos meios de comunicação de massa disseminar esse assunto e sim imagens de partos normais violentos e cesarianas "bem sucedidas", já que são financiados pela saúde privada e o lobby do poder médico come solto. No sistema de saúde pública também não somos informadas sobre parto durante o pré-natal e muito menos preparadas para esse momento. Na rede privada então, não vou nem comentar, essa não vai mudar nunca, e o movimento de humanização ainda é direcionado à classe média. Nesse sentido,  para aquelas que possuem capital cultural, ou seja, escolarização alta,  fazem parte de grupos sociais que tem o privilégio do acesso a informação qualificada, e não só isso,  tem poder para utilizar tais informações a seu favor,  o que resta é pesquisar, para as demais mortais o que resta é a violência obstétrica.

Dessa forma o termo "criação com apego" apareceu para mim lá por volta do 4º mês da minha filha, quando eu comecei a frequentar a blogosfera materna em busca de informações sobre introdução alimentar de sólidos. Inicialmente, eu achei interessante por causa da discussão de uma educação sem violência, uma pauta seríssima! Achei que poderia ser um movimento legal de discussão sobre os direitos de TODAS as crianças e a construção de uma cultura de criação não violenta, mas logo vi que embora tenha esse gancho essa perspectiva acaba se perdendo em função da ditação de regras, da abordagem liberal e vazia de conteúdo político, da meritocracia que  estabelece que para criar com apego "basta querer"  ou é "só escolher". 

Em pouco tempo comecei a ficar desconfiada e incomodada, principalmente ao ver mulheres se digladiando pela internet a fora  para provar quem é  "mais mãe" e quem é "menas mãe".  Esses dois termos são interessantes para pensarmos o quanto essa perspectiva de criação tem colocado as mulheres umas contra as outras e é preciso que se reflita profundamente sobre isso. 

Quando pensei em escrever esse texto, foi no sentido de, quem sabe, iniciar um debate crítico sobre esse assunto. É preciso que no ~ meio materno ~ as questões sejam mais aprofundadas e problematizadas. Acho que essa falta de aprofundamento se deve ao caráter pseudocientífico que algumas colocações no meio materno possuem, entre elas o discurso da criação com apego. Assim, se o doutor, o cientista e o psicólogo falaram que tem que ser, então deve está certo, para que discutir? 

Um exemplo dessa falta de aprofundamento, e que me incomoda demais,  é a discussão entorno do fato da mulher ter que voltar para casa ou continuar trabalhando depois que o bebe nasce. Parece que é uma questão de sim ou não. Quem ama o filho e cria com apego vai ficar em casa. A que "escolher" trabalhar, claro, também ama, mas coitada, vai ser "menas mãe" né? Não vai amamentar em livre demanda, não vai ficar com o filho no sling o dia todo, não vai compartilhar cama, pois cansada, precisa dormir mais ou menos bem, provavelmente vai dar chupeta ou deixar o filho chupar dedo, afinal, o que se faz com a necessidade de sucção quando o peito não está perto? Vai dar mamadeira, leite artificial, comida em papinha (quem vai limpar a sujeira do BLW enquanto ela trabalha? Quem pode desperdiçar comida com o BLW?), colocar na creche, deixar a mãe ou a vizinha cuidar, etc.  O que temos aqui nessa divisão quem não trabalha X quem trabalha? Duas situações com mulheres extremamente sobrecarregadas, mulheres sem apoio, falta de políticas de bem estar para mulheres e crianças,  afinal, deveríamos está pensando sobre o que será dessas mulheres e dessas crianças daqui a 10, 15 ou 20 anos. Mas não, partilhamos de uma visão de criação  que é liberal. É pautada no "basta a mulher querer" e esquecemos de todo o entorno, de todas as condições que deveriam ser postas em prática pela sociedade e pelo Estado para que essa mulher possa criar seus filhos com dignidade, não discutimos os privilégios daquelas que podem partilhar dessa forma de criação e os transformamos em mérito, esquecemos inclusive, de tratar do papel de uma figura chamada...pai. Isso para mim tem a ver com a cultura classe média do ~ meio materno ~ somada ao discurso da criação com apego, já que para ambos os problemas se resolvem ao nível da vontade individual, do jeitinho e do mérito da mulher, e se ela falhar ela não se esforçou suficiente, ela é "menas mãe".

Sempre que eu critico a sobrecarga imposta sobre a mulher,  mesmo se tratando de mulheres privilegiadas, alguém vem e diz que a criação com apego é voltada para a família. Isso não é verdade e é um argumento frágil e falso.

Frágil, porque a maior parte dos princípios relacionam-se a mulher, basta você contar quantas vezes aparece a palavra mãe e quantas vezes aparece a palavra pai quando alguém (algum cientista/especialista) fala sobre a criação com apego. Dia desses li uma entrevista de um renomado pediatra que escreveu um livro sobre  "terceirização da criança". Ele começa falando da importância da família, da mãe e do pai, mas isso só no primeiro parágrafo, no restante da entrevista só se fala em ...mãe. Isso é sintomático não?

O argumento é falso, pois não reconhece que vivemos em uma cultura machista e não problematiza isso. A mulher é culturalmente condicionada para se sentir responsável pela criação e para dar "amor" ao filho, afinal o "amor de mãe" é bem anterior ao discurso da criação com apego, não é mesmo? Não precisamos dessa "teoria" para sabermos disso, mas quanto ao pai? Quando teremos um movimento para que o pai seja pai?  E mais, para os  avós serem avós, os vizinhos serem vizinhos,  as escolas serem escolas, os professores serem professores, o poder público, ser poder público, etc. Até quando só a mãe vai ser responsável por todos os problemas da sociedade? Sim, criar filhos é construir uma sociedade, ou não é?

Não temos que nos sentir culpadas ou achar que vamos ser apedrejadas pelos que defendem essa ou aquela forma de criar filhos. O que no meu ponto de vista precisamos é discutir com seriedade a criação das crianças, os direitos que possuem à saúde, educação, cultura, esporte, a construção de uma cultura de não violência que saia do nível da psicologização, do individualismo, e seja mais abrangente, que trate de temas sociais como racismo, sexismo, homofobia, desigualdade social, etc, etc,. Temos uma agenda grande, precisamos aprofundar esses assuntos. Em outras palavras, quero dizer que a pauta da criação com apego não me interessa. Ela não é a pauta das mulheres negras. Já dormimos com nossos filhos e os carregamos  há milênios e isso não por modismo, mas por necessidade. Já ensinamos nossos filhos a dividir, a respeitar seus irmãos, a respeitar os mais velhos. Não precisamos de criação com apego quando temos UBUNTU.




Somos mães carinhosas, parimos, amamentamos. Aliás amamentação e mulher negra é uma história a parte. Cuidamos dos nossos filhos, dos filhos das nossas irmãs, amigas, vizinhas e... dos filhos da classe média. Porém essa ditação de regras, a apropriação cultural, a difusão de práticas liberais, o machismo, a heteronormatividade, o determinismo científico, a deslegitimação de famílias adotantes, etc. , que estão subjacentes no discurso da criação com apego me incomodam e interferem na minha vida.



Para quem é adepto da criação com apego é preciso lembrar que  não estamos nos Estados Unidos (nem sei se é exemplo de país com políticas de bem estar, tenho dúvidas) ou na Europa. Temos que batalhar por tanta coisa e eu fico muito surpresa quando vejo mulheres com tempo para acessar a internet e escrever, mulheres com tempo para pesquisar, mulheres com uma escolarização alta, enfim, mulheres com uma série de privilégios que poderiam ser postos a disposição daquelas que não tem, e que poderiam estar utilizando toda essa energia para lutar por melhores condições de vida para TODAS as crianças, gastando horas e horas de suas vidas discutindo se dormem ou não com o filho, se dão peito depois dos dois anos ou não, se dão comida de papinha ou não, etc. Não incluo aqui a amamentação exclusiva até os seis meses, nem o parto natural, porque não se tratam de "estilos de vida" como se mostra a criação com apego e outras práticas que se aproximam dela,  e sim, questões de saúde com muitas evidências e recomendações da OMS.

Bom, para o texto não ficar muito confuso vou  pontuar o que penso sobre alguns aspectos da criação com apego:

 Monopolização do discurso sobre o cuidado

Uma das primeiras impressões que tive quando li textos sobre a criação com apego, foi a de se tratar de uma associação, de um modo geral formada por psicólogos e pediatras, que pretende difundir práticas sobre um cuidado respeitoso. Pelo que entendi Attachment Parenting International  que é traduzida como criação com apego,   é uma espécie de ONG criada nos anos 1990, inspirada nas propostas do pediatra William Sears, quer dizer, é uma instituição  e  como toda instituição ela deve instituir, ou seja, criar práticas, padrões e regras para a sociedade, criar uma normalização. Nesse sentido, o que eu vejo como criação com apego não é somente uma forma de criar filhos e sim uma instituição que pretende definir sei lá porque interesses como as pessoas no mundo devem criar seus filhos e como devem ser essas crianças no futuro. Isso precisa ser dito, criação com apego não é movimento social,  é preciso que as pessoas saibam que quando dizem  fazer  criação com apego não estão praticando apenas um modo de criar filhos, estão também aderindo a uma instituição, a uma marca, uma escola de pensamento, que a meu ver quer monopolizar as práticas de cuidado, quer definir como as mulheres no mundo devem cuidar de seus filhos. Estão projetando pessoas, como o tal Dr. Sears, por exemplo,  e vendendo produtos (muitos livros, palestras, Kits de alimentação etc.). Talvez por isso a questão das "regras" apareça tanto na fala das mães que se sentem oprimidas pela criação com apego, porque uma instituição precisa padronizar para poder se estabelecer.Eu, sinceramente,  não vou ser partidária de algo que eu nem sei quais são os interesses e não faço ideia de quem sejam as pessoas envolvidas, por mais que a ideia seja bacaninha. Também não concordo com um grupo que pensa que suas regras valem para toda humanidade.

Vejo que por aqui a criação com apego tem sido difundida como o único modo de se criar uma criança de forma não violenta. Quando você diz que não é partidária da criação com apego parece que você está dizendo que maltrata, espanca, xinga, põe de castigo e humilha seu filho.Que você é "menas mãe". Que você é uma pessoa ignorante e não sabe o que há de mais atual em termos de criação de filhos. Essa monopolização é uma das principais razões para a disputa entre as mães. Daí eu fico pensando: Quem tem o monopólio sobre o que é melhor para nossos filhos? Quem dita isso? Como e quando conversamos sobre isso e quando decidiram por mim? Por que decidimos aderir a essa instituição? Não temos exemplos na nossa sociedade de formas afetuosas de criação e precisamos buscar uma ONG dos Estados Unidos? Agora vou ter que saber inglês para poder ser uma boa mãe, já que tudo que a criação com apego produz é em inglês? Quem determina como devemos agir com nossos filhos? O Dr. Sears tem legitimidade para isso? Quem é ele? Eu  devo seguir orientações de um homem branco de um país do Norte sobre como ser mãe? Por que devemos seguir orientações de uma instituição que não é brasileira e se organizou sobre uma realidade que não é a nossa? Onde anda nossa criatividade para resolvermos os impasses que temos na criação de nossos filhos?

É importante que as pessoas saibam que quando se trata de psicologia do desenvolvimento existem diferentes teorias. Existem argumentos e contra-argumentos. Por exemplo, pode-se argumentar que ficar com uma criança 24 horas por dia pode fazer dela um ser mais feliz no futuro ou fazer dela um ser dependente. Estamos tratando de seres humanos, de algo que não é exato.

A criação com apego é apenas UM RECORTE dentro de algo maior que é a  TEORIA DO APEGO, a qual foi desenvolvida inicialmente pelos estudos de John Bowlby e Mary Ainsworth, em um contexto no qual as mulheres brancas de classe média reivindicavam sair de casa para trabalhar (coincidência?),  e atualmente tal teoria tem zilhões de apropriações por psicólogos de diferentes correntes e visões políticas.

A teoria do apego  é uma das várias teorias dentro de algo maior ainda que é a psicologia do desenvolvimento. Então entre  Freud e Piaget,  entre Vigotsky, Skinner e Bowlby, tem muita coisa no meio, tem muita corrente política e ideológica também. O conhecimento sobre o ser humano e seu desenvolvimento não pode ser monopólio de um grupo. Você pode se apropriar de diferentes teorias do desenvolvimento humano para se relacionar com seus filhos. Por que, então, esse pensamento único? 


Criação com apego X parto ativo

Meu parto foi natural. É o melhor para a saúde da mulher e do bebê, isso é fato. Eu confio na capacidade de parir das mulheres e na capacidade de nascer dos bebes, é fisiológico. Ideologicamente falando, defendo o parto ativo, acredito que nele a mulher tem controle sobre o próprio corpo, o que é um direito dela. No nosso contexto, isso faz com que ela e seu bebe sejam respeitados, não sofram violência obstétrica. Aprendi ao longo da minha gravidez que a mulher sabe parir, que a intervenção médica deve acontecer somente em caso de necessidade, que a medicalização da gravidez é excessiva. Depois do nascimento da minha filha, também passei a encarar a medicalização do desenvolvimento dela como algo desnecessário. O acompanhamento dela é feito por enfermeira no posto de saúde e até aqui estou satisfeita. Só que eu vejo uma contradição dentro do ativismo, uma vez que o discurso da humanização do parto e o da criação com apego, muitas vezes são faces da mesma moeda, muitas vezes partem das mesmas pessoas e lugares e se confundem.  Eu acho contraditório demais, mas entendo a confusão já que a criação com a pego, no seu principio primeiro defende o parto natural. A visão ideológica de ambos os ativismos também é parecida. É liberal e meritocrática, pautada no "a mulher tem que correr atrás".

Pois bem, enquanto para o parto humanizado a mulher é senhora do próprio corpo, protagonista que sabe parir, na criação com apego ela já não tem mais a mesma capacidade para amar seu filho e precisa usar as muletas chamadas de...oito princípios (regras).  Deixa de ser a protagonista e passa novamente a depender dos especialistas que vão dizer qual é a melhor forma de desenvolver o amor entre ela e seu filho.  

Novamente os cientistas e os médicos são convocados. Novamente ela perde o controle da situação. Novamente ela volta para a condição de mulher imposta pela sociedade. Se torna mãezinha,  mas dessa vez de forma sofisticada, embasada em pesquisas neurocientíficas. Surge até um novo termo, a MATERNAGEM. Essa abordagem dificulta a percepção de algumas armadilhas, como no caso da mulher que  está sem condições financeiras e sem condições de estudar e que  para aderir ao "movimento" e se tornar uma boa mãe, deixa de  pensar no próprio futuro ao "decidir" que não vai mais trabalhar.  

Neurocientistas, psicólogos, pediatras, etc. Todos vão dizer para a mãezinha o que ela deve fazer para conseguir algo tão difícil... amar seu próprio filho e ser amada por ele... o pior é que em geral são homens dizendo o que as mulheres devem fazer para cuidar de seus filhos. A mulher que havia se tornado protagonista, "empoderada", que se contrapôs ao poder médico, que moveu céu, terra e mar para parir, retorna a condição de dependente do conhecimento de homens sobre algo que é tão tradicional quanto parir, e mergulha em um mundo de culpas quando não consegue seguir as regras colocadas pela instituição criação com apego.

Uma outra contradição do ativismo, diz respeito a análise das evidencias científicas. Nas minhas primeiras leituras sobre parto humanizado sempre me deparava com a expressão "medicina baseada em evidências". Por que é que o incentivo a práticas baseadas em evidências não continua com relação a criação com apego? Vejo um desfile de estudos muito iniciais apresentados com status de verdade científica, fazendo com que as mulheres se sintam culpadas ao não conseguirem aderir  a determinadas regras. 

Cientificismo e psicologização

Eu acredito que o cientificismo e a psicologização são centrais no sistema de culpas construído pela criação com apego. O argumento de que "o que você fizer com seu filho vai impactar a vida dele para sempre" é muito forte e é muito presente em todos os textos sobre o tema encontrados na internet e no próprio site da associação criação com apego. Também falam muito que " Os resultados do apego seguro acompanham as crianças também na vida adulta". 

Nas palavras da autora do blog Cientista que virou mãe, o qual é referência sobre criação com apego no Brasil: "O termo attachment parenting  foi utilizado pela primeira vez por um médico, William Sears, com base na teoria do apego, que leva em consideração o fato de que a criança, durante sua infância, tende a criar um vínculo emocional bastante forte com seus cuidadores que gera consequências durante toda sua vida." (o negrito é da própria autora).  Você pode ler esses argumentos aqui  e aqui.

O cientificismo tem como desdobramento a psicologização, a qual é uma entrada para a medicalização. Vejo aqui uma outra contradição do ativismo, o qual questiona a medicalização, mas não questiona a psicologização promovida pela criação com apego. Argumentos do tipo "o que você fizer vai impactar a vida do seu filho para sempre", são extremamente deterministas e já traçam uma personalidade, se é que isso existe, de forma muito precoce para um ser humano que está em constante construção. Eu sou paulofreireana e acredito que somos totalmente inacabados. Estamos constantemente sendo construídos e reconstruídos. Não existe essa de "para o resto da vida". Acho isso determinismo da pior espécie. Como é que os dois primeiros anos de vida podem determinar o que um ser humano vai ser para sempre? Vocês realmente acreditam nisso? Vocês criam seus filhos com amor por causa disso?  Vamos amar nossos filhos porque eles são seres humanos e ponto!

Quando as mulheres reclamam que se sentem cansadas e oprimidas por terem que seguir as regras da criação com apego, logo aparece alguém para dizer que ela não precisa fazer tudo, que é só escolher o que mais se adéqua a sua família, mas diante desse determinismo todo vocês acham que ela vai ficar segura em abrir mão de alguma das regras? Você acha que ela não vai tentar até a exaustão por em prática todos os "princípios". E você acha que ela não vai começar a julgar as que não conseguiram, já que é uma questão de "basta se esforçar"?

Então diante disso, há regras sim. Vamos falar a verdade. Todo mundo se esforçando ao máximo para manter o filho no sling o dia inteiro. Dar peito em livre demanda para sempre. Dormir em cama compartilhada com a coluna se acabando. Garantir o parto humanizado idealizado a qualquer custo. Se falhar em alguma dessas estratégias,  vai ter pesadelos com o futuro dos filhos. Vai pensar que os filhos serão drogados, marginais, não gostarão dos pais nem de estudar, serão adolescentes rebeldes, não seguirão a vidinha medíocre classe média de crescer, estudar, fazer faculdade, comprar carro, comprar casa, ser heterossexual, casar com pessoa do mesmo nível sócio-econômico e racial,  ter filhos, etc. Digo isso porque não vejo nos fóruns de criação com apego e "maternagem consciente" as pessoas discutindo o que querem realmente do futuro, da sociedade, das relações sociais. Vejo que o que querem do futuro é a perpetuação da mesma vida classe média, da mesma sociedade, só que agora com "mais amor por favor".

NÃO ADIANTA DIZER AGORA QUE NÃO HÁ REGRAS SE VOCÊ JÁ DISSE  PARA AS MULHERES, BASEADO EM ARGUMENTOS CIENTÍFICOS, QUE O QUE ELAS FIZEREM COM OS FILHOS VAI IMPACTAR A VIDA DELES PARA SEMPRE. A CULTURA DA CULPA JÁ FOI INSTALADA AÍ!

Esses argumentos deterministas, são perigosos e não possuem evidencias científicas. Como mulher negra moradora da favela, penso que essa visão serve para reforçar os estigmas que nós negros carregamos de "perigosos", de "suspeitos", de "potencialmente criminosos". Tais estigmas são construídos principalmente sobre as crianças negras e possuem essa base pseudocientífica, para a qual a violência sofrida por essa criança em decorrência da ausência da mãe que trabalhava fora, da "família desestruturada" (que é sinônimo de "mãe solteira" - um nome ruim para outro pior ainda) e principalmente a pobreza,  marcaram sua "personalidade" para sempre, por isso ela é assim, por isso tem tendencias ao crime a a autodestruição. Disfarçou-se a explicação baseada na raça, na genética, em uma baseada na pobreza e na ausência da mãe. Essa reprodução de uma visão determinista, que em ultima análise reforça a criminalização da pobreza, incentivada pela criação com apego também  é um dos  motivos para eu não compactuar com ela. E faz dela totalmente elitista uma vez que as mulheres pobres vão continuar trabalhando, vão continuar longe de seus filhos, e esses continuarão, dentro dessa visão, sofrendo os supostos impactos dessa ausência,  e sendo vistos por isso, com preconceito,  num ciclo sem fim.

Dando suporte a esses argumentos deterministas sempre  vem discussões sobre as sinapses cerebrais, a liberação de oxitocina e o equilíbrio psicológico das crianças. 

Os adeptos da criação com apego dizem que baseiam-se em estudos neurocientíficos que comprovam tais afirmações, porém esses estudos são muito controversos. É comum encontrar diferentes contra-argumentos no meio da neurociência uma vez que o cérebro humano é um verdadeiro mistério. Além disso como é possível afirmar que uma sinapse cerebral é sinônimo de amor? Uma sinapse cerebral é a transmissão de impulsos nervosos de uma célula para outra, basicamente.  Amor tem a ver com as relações sociais, com o cuidado,  e não só com o biológico. Aliás, o amor tem uma historicidade, nem sempre foi como é hoje. Ele começa no corpo, mas passa pelo crivo da cultura e da sociedade.

Um outro problema é o exagero com relação aos efeitos da oxitocina. Os estudos sobre esse hormônio como hormônio do amor são extremamente incipientes. O que é evidência científica sobre a oxitocina é o seu papel com relação ao trabalho de parto e decida do leite materno. Em relação ao amor, nada é comprovado, os estudos estão engatinhando. Você pode ler sobre essas questões que envolvem cérebro e oxitocina nesse texto Neurociências na berlinda e na entrevista do neurocientista Raymmond Tallis para quem Neurociência para tudo é bobagem. Esses textos são só para apresentar contra-argumentos e mostrar que  os argumentos da criação com apego não são evidências científicas, até porque essa instituição tem cerca de 20 anos, então não há estudos longitudinais suficientes para dizer que isso ou aquilo vai impactar alguém para o resto da vida.  Mesmo se tivessem esses estudos, poderíamos questionar a capacidade de transculturalidade deles, ou seja, de serem aplicados em realidades culturais e sociais diferentes. Então por que esse discurso ganhou status de verdade científica? 


Eu ainda queria escrever sobre os demais aspectos que pontuei lá no início como incômodos que eu tenho com a criação com apego, porém o texto ficaria bem maior do que ele já está e isso para um blog é maçante. Desse jeito resolvi escrever por partes e logo logo escreverei a parte II.

A segunda parte do texto está aqui http://pretamaterna.blogspot.com.br/2015/10/os-usos-e-abusos-da-criacao-com-apego.html


        

94 comentários:

  1. Muito bom o texto, Guará!!!!

    Usar esse artifício da competição feminina não é novidade, né! Infelizmente, isso não foi inventado pela criação com apego! Estão sempre reciclando esse discurso que cria uma antipatia natural entre nós: mulheres não são amigas, beijinho no ombro o recalque passa longe. Isso é muito útil ao sexismo.

    Nós temos muito mais em comum do que querem que acreditemos.

    Bjs!!!!!!!!

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  2. É verdade Vanessa, tem uma galera incomodada com a capacidade de articulação da mães, mas estamos atentas... nada passa batido...

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    1. Eu sempre quis articular isso mas me sentia silenciada, cruel, dentre outras coisas.
      Obrigada por ser a primeira a romper o silêncio. Não curto falar de maternidade no geral porque a dor é mais complexa e muito longa. Sou mãe de adolescente já. Um pesadelo que parece não acabar.

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  3. Meu Deus, quanta lucidez!!!
    Que maravilha terem compartilhado esse texto comigo.
    Sempre tive um pé atrás com essa história de criação com apego. Sempre senti um profundo julgamento de que a mãe/pai/família que não pratica esse tipo de criação e errada e que não existe outra forma de se criar uma criança, exatamente como você descreveu.
    Obrigada inclusive por mostrar que a criação com apego e um "método" como tantos outros ainda que aqui no Brasil não seja divulgado como.
    Também creio como você que o método está fora da realidade da maioria das pessoas e nisso eu me incluo ainda que "branca de classe média". Sempre soa como: onde já se viu você com " todas as oportunidades desse mundo", estudada, não maternar com apego?
    Também amo a teoria do Paulo Freire e viva a oportunidade de crescermos e mudarmos o que está ao nosso redor!
    Obrigada de coração.

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  4. Meu Deus, quanta lucidez!!!
    Que maravilha terem compartilhado esse texto comigo.
    Sempre tive um pé atrás com essa história de criação com apego. Sempre senti um profundo julgamento de que a mãe/pai/família que não pratica esse tipo de criação e errada e que não existe outra forma de se criar uma criança, exatamente como você descreveu.
    Obrigada inclusive por mostrar que a criação com apego e um "método" como tantos outros ainda que aqui no Brasil não seja divulgado como.
    Também creio como você que o método está fora da realidade da maioria das pessoas e nisso eu me incluo ainda que "branca de classe média". Sempre soa como: onde já se viu você com " todas as oportunidades desse mundo", estudada, não maternar com apego?
    Também amo a teoria do Paulo Freire e viva a oportunidade de crescermos e mudarmos o que está ao nosso redor!
    Obrigada de coração.

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    1. Obrigada pelo comentário Gleice. Acho que já está mais do que na hora de repensarmos esses discurso sobre "como se mãe". Precisamos avaliar criticamente se as propostas que estão aí realmente servem para as nossas vidas e se estão de acordo com o que acreditamos.

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  6. Totalmente excelente! Parabéns por tantas reflexões importantes!

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  7. Obrigada Milena! Esses discursos direcionados as mães precisam ser repensados, e mais do que isso, precisam ser postos de lado se quisermos realmente uma maternidade livre.

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  8. Quase chorei aqui com esse texto! Haha
    Pq eu tenho escutado mt sobre esse método. E nunca tive interesse em ler sobre, pq acredito fielmente no meu instinto materno. Só eu sei o que é melhor para o meu filho. Sem regras. Essa é a minha maternagem! Eu e meu curumim descidimos o que é melhor para nós. Sem seguir padrões impostos, pq cada um é um que somo o todo! E cada filho tem sua mãe que lhe é especifica para suas necessidades e obstáculos que irá vivenciar nessa vida. E eu tenho visto mt debate de mães julgadoras. E o discurso de sororidade?! E as mães q não podem amamentar e estão no LA? E as que precisam trabalhar?! Não são mães, são monstros egoístas..e o apoio vem com criticas. Enfim, guerra sem fim!
    Parabéns por ser tao esclarecedora, e mostrar o obvio que tem sido perdido, das mães q estão se perdendo com tanta regra e blabla do que é intrisico. Bjos!!

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    1. Obrigada J. R. Santos por ter lido o texto, nós sabemos o que passamos no dia a dia. A criação de nossos filhos tem um cotidiano e esses discursos atuais sobre maternidade não contemplam isso. Acho que a questão da sororidade não passa pela criação com apego porque ela não está preocupada com a mulher, por isso é importante que a maternidade seja discutida tendo como base os nossos direitos, os quais foram conquistados duramente e a criação com apego está jogando ralo a baixo.

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  9. Excelente texto!! Colocou em palavras a maneira como sempre pensei. Obrigada

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  10. parabéns! excelente texto! mantenha essa força! não é fácil se opor aos fanatismos que rolam na internet... Um beijo

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    1. Obrigada Carolina, não é fácil, mas vamos em frente!

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  11. Muito obrigada pelas suas palavras. Texto maravilhoso

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  12. Muito obrigada. Havia feito um comentário enorme mas não consegui postar. Só gostaria de agradecer e dizer que, se puder andar ao lado de mais mulheres mães para questionarmos o lugar que na colocam e melhorarmos a todos, seria um prazer.
    Muito obrigada.

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    1. Oi Melina, é disso que precisamos, união entre as mães para tratarmos dos nossos direitos e dos direitos dos nossos filhos, os quais a criação com apego não contempla e silencia.

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  13. Ola Milena. Seu olhar sobre foi para mim muito esclarecedor do meu encomodo. Um olhar sociológico e q considera a realidade no país ( cultura) q vivemos, q é machista e sim sobrecarrega a mulher.
    Me senti extremamente sobrecarregada no pos parto, mesmo tenfo a prede ça de pessoas da familia para me "ajudarem" e encontrei na criação com apego algumas vezes, argumentos para manter minha posição diante das opiniões q não são bem vindas, nunca segui regras ou normas e por isso usei essa linha "a meu favor" em alguns aspectos.
    No entanto, isso de "o q vc fizer vai determinar para a vida toda a vida do bebê " eu não tinha me tocado o quanto me oprimiu. Eu sou chorona e na gravudez e pos parto eu chorei quase todo dia, as vezes de felicidade, mas nem sempre. E qd chorava pensava q estava prejudicando ele, sua saúde e tb personalidade, e chorava ainda mais por isso...então ficava chorando pq meu choro era ruim...num ciclo sem fim. E como fiquei cansada.... E sim eu amamento em livre demanda e quis isso e sim, como vc falou, as circunstâncias em torno tornam a tarefa quase impossível e isso precisa ser discutido. Pq não é. Parece isso, q se a mulher não consegue é pq é preguiçosa e não é verdade. O q acontece é q é quase impossível. E eu bati pé, briguei e obriguei(praticamente) aqueles q estavam a minha volta a me ajudarem como eu precisava...pq a sociedade não quer isso. Não ta acostumada com um filho grudado na mãe e nem a mulher foi culturalmente preparada pra isso. Eu não fui. Só na parte romântica.
    Mas fui preparada pra estudar 8h por di. E trabalhar. Eu não só preciso trabalhar , como é um direito de conquista da mulher. E pq? Pq não é apenas na situação de necessidade ( q vc pontua muito bem) mas tb pq eu nao sou feliz o dia todo em casa. Não aprendi esse caminho e nem é minha escolha.
    Mas então eu tenho q deixar em creches q não confio( pq educacional ta foda), dar mamadeira...chupeta e não faço nada disso.
    Trabalho e levo ele. E sofro muitos problemas e preconceitos por isso. E a criação com apego não contempla essas questões. Sociais.
    E depois do seu texto elucidativo, entendi alguens dos porquês.
    Gratidão

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    1. É isso! Concordo plenamente! Não somos preparadas para ser mães, mas sim preparadas para ser esposas e profissionais em tempo integral... "sucesso"... rsrsrs enfim...

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  14. Ola Milena. Seu olhar sobre foi para mim muito esclarecedor do meu encomodo. Um olhar sociológico e q considera a realidade no país ( cultura) q vivemos, q é machista e sim sobrecarrega a mulher.
    Me senti extremamente sobrecarregada no pos parto, mesmo tenfo a prede ça de pessoas da familia para me "ajudarem" e encontrei na criação com apego algumas vezes, argumentos para manter minha posição diante das opiniões q não são bem vindas, nunca segui regras ou normas e por isso usei essa linha "a meu favor" em alguns aspectos.
    No entanto, isso de "o q vc fizer vai determinar para a vida toda a vida do bebê " eu não tinha me tocado o quanto me oprimiu. Eu sou chorona e na gravudez e pos parto eu chorei quase todo dia, as vezes de felicidade, mas nem sempre. E qd chorava pensava q estava prejudicando ele, sua saúde e tb personalidade, e chorava ainda mais por isso...então ficava chorando pq meu choro era ruim...num ciclo sem fim. E como fiquei cansada.... E sim eu amamento em livre demanda e quis isso e sim, como vc falou, as circunstâncias em torno tornam a tarefa quase impossível e isso precisa ser discutido. Pq não é. Parece isso, q se a mulher não consegue é pq é preguiçosa e não é verdade. O q acontece é q é quase impossível. E eu bati pé, briguei e obriguei(praticamente) aqueles q estavam a minha volta a me ajudarem como eu precisava...pq a sociedade não quer isso. Não ta acostumada com um filho grudado na mãe e nem a mulher foi culturalmente preparada pra isso. Eu não fui. Só na parte romântica.
    Mas fui preparada pra estudar 8h por di. E trabalhar. Eu não só preciso trabalhar , como é um direito de conquista da mulher. E pq? Pq não é apenas na situação de necessidade ( q vc pontua muito bem) mas tb pq eu nao sou feliz o dia todo em casa. Não aprendi esse caminho e nem é minha escolha.
    Mas então eu tenho q deixar em creches q não confio( pq educacional ta foda), dar mamadeira...chupeta e não faço nada disso.
    Trabalho e levo ele. E sofro muitos problemas e preconceitos por isso. E a criação com apego não contempla essas questões. Sociais.
    E depois do seu texto elucidativo, entendi alguens dos porquês.
    Gratidão

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    1. Obrigada por ter lido o texto, é importante deixarmos de lado esses discursos deterministas. A criação dos nossos filhos é um cotidiano muito complexo, não há fórmula que dê conta e essa ideia do "para sempre" na minha opinião é uma estratégia da criação com apego para manter a fidelidade das mulheres já que sempre vão se sentir culpadas.

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  15. Muito bom texto...vale a reflexão ...agora vou pela parte 2!!!

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  16. Muito obrigado! faz tempo que o discurso da "criação com apego" me incomoda, mas não tive talvez a coragem, talvez a lucidez de compreender o motivo. Como pai, sempre me senti mal com a maneira do meu papel "de apoio" e limitado a uma fase posterior na vida do meu filho. Acho também que a ênfase eterna na primeira infância e a enorme carência de debate sobre os outros momentos da vida da criança e do adolescente apenas reforçam o quanto existe de heteronormativo, classista e racista nos debates sobre a primeira infância, afinal, depois daí é muito mais difícil, para não dizer impossível, mascarar o quanto o mundo pesa sobre nós e sobra a educação de nossos filhos. Olorum modupé!

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    1. Obrigada por ter lido o texto. Concordo com você com relação a essa enfase na primeira infância. Ela acaba sendo o argumento para se explicar todos os problemas sociais posteriores. E realmente, como a criação com a pego é machista ela determina que só a mãe pode dar conta de tudo que a criança precisa e o pai é posto totalmente de lado.

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  17. Este comentário foi removido pelo autor.

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  18. Só para adicionar mais um elemento na discussão.

    Em paralelo a sua linha de argumentação (as pessoas estão sempre em construção e reconstrução), alguns empresários visionários estão se propondo a consertar o que as mulheres pobres fizeram de errado com seus filhos, por meio de muito desenvolvimento socioemocional na escola pública.

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    1. Eu estou mais ou menos ligada nessa parada Vanessa. Aqui no Rio o discurso sobre a necessidade das UPPs também tem o argumento de que as crianças que estão nascendo em áreas pacificadas não serão uma geração perdida como as que nasceram antes da pacificação. Ouvi isso de um empresário que apoia as UPPs e que é conselheiro da Secretaria Municipal de Educação do Rio. O que será que eles vão ganhar com isso, já que de boas intenções o inferno tá cheio?

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  19. Amei seu texto e publiquei na minha página Born to be mother. Gostaria de conversar com vc por email. Aguardo contato!

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  20. Oi Karina, meu e-mail é guara.historiadora@gmail.com

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  21. Como futura mãe por adoção, seu texto me representa muito! Esse determinismo relacionado à primeira infância sempre me incomodou e eu sempre senti que minha família não "cabia" no discurso integral da criação com apego. Inclusive, como você bem pontuou, essa situação pode ser mais um viés de preconceito que a adoção venha a sofrer em nossa sociedade, bem como as crianças que são filhas por adoção. Segundo esse determinismo dos primeiros anos, como uma criança que passou parte da infância abrigada pode ser "tão boa" quanto a que viveu sempre no seio familiar?? Não será nunca?? Se a sociedade pensar assim, coitada das crianças que estão para adoção! E a verdade é que a prática não mostra nada disso; a prática mostra que o amor e o cuidado são transformadores, independente da idade com a qual aquela criança (ou mesmo adolescente) teve acesso à convivência familiar.

    Muito obrigada pela reflexão! E estou esperando ansiosa pelas próximas partes.

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  22. Obrigada Lorena, que bom que consegui te alcançar com esse texto. Eu sempre penso nas famílias adotantes e nas crianças que estão a espera de adoção toda vez que leio textos sobre criação com apego. Esse discurso da criação com apego é muito irresponsável.

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  23. Obrigado por ter escrito, ótimo texto!

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  24. Uau!! Que texto fera, ótima reflexão!!! Li bastante sobre criação com apego no primeiro ano do meu filho, e qdo voltei ao trabalho é que comecei a perceber alguns vieses e questões, comecei a ficar com um "pé atrás". Nesse texto vc escancarou meus olhos!! É muito mais problemático do que eu havia percebido!! Aguardando ansiosamente a segunda parte!

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    1. Pois é Edith essa é a questão. Por que a criação com apego pauta a presença da mãe junto a criança mas não pauta a luta pela redução da jornada de trabalho? Quando você volta a trabalhar vira o salve-se quem puder não é mesmo?...

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    2. Prrfeito, Guaraciara! Parece que do 4 mes da minHa bb pra frente (nao sou CLT, sou pos graduandem esca DA escola)publucala publica) só me resta ou ser "menas mãe" iu ser "nenas" profisli!nal! Culpa e cobranca sempre vai haver..

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    3. Completndo meu pensamento... rs Acho que pensar a mulher sob o vies do direito sobre seu corpo, da independencia emocio al e financeira em relacao aa familia e ao marido, e tbm da perspectiva das conquistas trabalhistas e da condicao de mae solo e "chefe" do lar eh fundamental como pauta do nov feminista, mas fico pensando por outro lado comk isso tbm nao se encaixa na doutrina neo liberal...

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  25. Querida, pesquise melhor pois seu texto é baseado em uma visão superficial e completamente distorcida. Isso que você descreveu é exatamente o movimento contrário do que se chama criacao com apego, que, inclusive, é baseado em modos de cuidar indígenas. Triste ler um texto que mais nos separa do que nos agrega. Triste um ataque desse contra mulheres e homens, país e mães, que querem repensar a maternidade hegemônica que nos empurram goela abaixo. Abraço!

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    1. Querida o que a criação com apego faz com os indígenas se chama APROPRIAÇÃO CULTURAL. É a velha pratica colonizadora da branquitude de se apropriar do que é nosso e transformar em produto lucrativo para alguns. Talvez seja melhor você ler mais sobre os direitos das mulheres e talvez conseguirá entender porque é a criação com apego o que os divide.

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    2. Acho legal você procurar ler , além dos direitos das mulheres, sobre liberalismo para ver que a criação com apego não é contra hegemônica.

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  26. Nunca li tanta bobagem na minha vida. Diz-se que a infância e os primeiros anos impactam para sempre na vida das crianças porque isso É VERDADE. É um fato, verificado empiricamente durante milênios, eu goste ou não, qualquer pessoa goste ou não, é simplesmente verdade. E isso passa, sim, pelo afeto do pai e da mãe, a criança depende do amor dos pais para ter um bom desenvolvimento. E sim, isso é responsabilidade dos pais, e se não aguenta, basta não ter filhos. Não se pode negar os aspectos da realidade que lhe causam desconforto e fingir que eles não existem, isso seria sintoma de psicose. A realidade está ai, adaptemo-nos a ela.

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    1. Você deveria ler um pouco mais sobre direitos reprodutivos e sobre maternidade compulsória antes de dizer "se não aguenta, basta não ter filhos", no restante acho que você poderia discutir com mães adotivas sobre os impactos do que é feito na primeira infância. Beijos.

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    2. Ah, só faltou você dizer "é por que Deus quis assim".

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  27. Gostei do texto, so achei que ele desloca um pouco o foco do que era na origem um contra discurso, para tomá-lo numa nova perspectiva como dominante. O que sera que ainda impera? (esquecamos por hora isso do gueto do parto humanizado) O discurso do "nao pegue muito no colo porque vai acostumar mal" ou o do "carregue no sling o tempo todo e nao se importe com suas costas"? Sao dois extremos e quando se fala de dentro do gueto o texto é bem acertado, por isso gostei, mas ainda acho que o que impera é a criacao sem apego.

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    1. Olá Adri no meu ponto de vista (também não sou dona da verdade nem quero ser) a criação com apego não é um contra discurso, pois estou tentando analisá-la a partir de sua ideologia, a qual continua mantendo a ideia de que "a mulher tem que correr atrás, tem que ser virar e tem que ser a única responsável pelo filho", ela é heteronormativa, pois não reconhece famílias formadas por casais homossexuais masculinos por exemplo, famílias que não tem a presença da mãe que pariu e amamentou, não reconhece famílias adotantes, as quais vão ter como filhos crianças com que não conviveram na primeira infância. Continua defendendo uma prática que aprisiona a mulher, pois coloca nos ombros dela a maior parte dos cuidados. É mais uma teoria machista, aliás é foi criada por homens. Na minha opinião as questões relacionadas a maternidade não podem ser desligadas da luta pelos direitos das mulheres e dos direitos das crianças e a criação com apego desfoca isso e invisibiliza também ao não pautar por exemplo a luta pela redução da jornada de trabalho, já que prega que as mulheres devem se dedicar mais ao bebê. A criação com apego felizmente não impera, ela é muito forte no meio materno da internet, mas na vida real ela não faz parte da casa da maioria das mulheres, que continuam, mesmo não aderindo a criação com apego, amando seus filhos e fazendo o máximo por eles e questionando a violência e lutando contra ela. Eu não sou partidária da criação com apego e faço parte de movimentos contra a violência doméstica e pelos direitos das crianças, por exemplo.

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    2. Guará, quero agradece-la pelas informacoes sobre que tipo de movimento é o que se auto nomeia "criação com apego" Realmente eu desconhecia e foi realmente salvador para mim que pensava que esse termo pudesse ser usado de um modo generico, sem referencia a tantas normas que acabam cimentando a maternagem e com agendas e autores especificos etc. Mas o que eu disse realmente nao foi que a "criação com apego"(marca registrada) seja um contra discurso, mas que o que chamo de ideia generica de criacao com apego tenha sua ORIGEM num contra-discurso (foi a primeira linha q escrevi) . Talvez essa confusao do uso do termo esteja causando confusao, porque para eu que nao sabia o que estava por trás do termo, isso sempre foi um contra discurso, uma pratica muito mais de desapego de normas e libertacao da mulher do que justamente no que se transformou... Entao, seu texto esta sendo um grande aprendizado mesmo para mim,
      Adri Natri

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    3. Ah, dei uma busca agora e encontrei um texto da cientista que virou mae, é recente, vc deve ter lido http://www.cientistaqueviroumae.com.br/2012/08/criacao-com-apego-verdades-mentiras.html que fala dessa questao da autoria ... "Embora muitas matérias sobre o tema deem ênfase aos tais "princípios do Dr. Sears", não foi o Dr. William Sears quem "criou" essa forma de maternagem. Como alguém poderia ter criado uma forma intuitiva de cuidados infantis que acompanha a humanidade há séculos e que é totalmente variável entre as culturas"... entao é dessa ORIGEM que estava falando, anterior a teorizacao... uma coisa intuitiva... Mas entendi perfeitamente o foco do seu texto, sobre como uma coisa aparentemente libertaria pode se transformar em um novo paradigma que acaba sendo o oposto.

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    4. É essa ideia Adri, a criação com apego como instituição se apropriou de práticas que já eram das mulheres, principalmente das mulheres pobres, negras e indígenas e transformou-as, a partir de uma lógica de cientifização, em produtos. Isso é apropriação cultural.

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  28. O fato de muitas mulheres não fazerem parte e nem se quer conhecerem a criação com apego não significa que elas maltratem ou não tenham amor. As relações nas famílias são muito diversas. Não dá para rotular, com apego ou sem apego, eu acho. Precisamos lutar contra a violência mas sem aprisionar as mulheres.

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  29. Pois é, eu concordo com Mami e também gostei muito do texto. Mas ainda acredito que é preciso abrir os olhos para as necessidades da infância. A nossa geração veio da palmada como educação, de obedeça seus pais sem motivo nenhum, de deixa chorar para aprender, criança não tem voz. Minha mãe é negra, teve filhos cercada de machismo, sem muito apoio (apesar de ser casada) trabalhava, um filho em cima do outro. Meu pai, acho que até hoje, vive em outra galáxia, não se dá conta do mundo. Hoje, eu vejo que mesmo com as adversidades poderia ter sido melhor, faltou abraço, faltou atenção, faltou colo, faltou, pasmem, a cama compartilhada (um dia pelo menos, naquele dia de pesadelo, de frio, de dor), e eu abraço a criação com apego pensando nisso. Sou mulher, negra, mãe sem um companheiro ou companheira para dividir, trabalho o dia todo, mas tento fazer diferente. Para mim a teoria do contrário do apego é bem pior e vejo sim ditando os comportamentos. Ou não são regras: deixa no berço, dá logo mamadeira e chupeta, compra isso e aquilo senão vai ficar dependente de você. Agora qualquer coisa tem mais de um lado, merece críticas e pode ser desvirtuada pelos grupos que aplicam. Não sei, para mim, foi mais positivo que negativo. Bem mais mesmo.

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  30. Eu também acho que é preciso abrir aos olhos para as necessidades da infância. Mas de que forma? Porque é preciso aderir a um discurso único se os contextos em que as mulheres vivem são variados? Por que se defende a criação com apego como se ela fosse uma religião? Quantas mães que viveram no mesmo contexto que a sua abraçaram, beijaram, compartilharam cama? Eu por exemplo, mamei até os 4 anos de idade e dormia com a minha mãe. Minha mãe teve 6 filho e eu nasci nos anos 70. Nem por isso minha mãe se achava ou se achou melhor que outras. Naquela época não tinha criação com apego. Por que agora então existe essa competitividade toda?

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    1. Estou tentando discutir a criação com apego a partir de suas bases ideológicas. Então a partir disso te pergunto, já que você se identificou como negra, o que você acha da apropriação cultural promovida pela instituição attachment parents?

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  31. Prezada Guaracira, peço , por favor que entre em contato comigo ou por meu email pessoal soukafischer@gmail.com ou pelo do meu trabalho com maternagem que é maesjuntasemisturadas@gmail.com
    tenho muito interesse em convidá-la para um workshop que estou organizando sobre maternagem consciente.. Por favor, entre em contato.
    Att, Karina Petroni Fischer

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  32. Adorei o texto! Sábias palavras! Tenho lido sobre essas questões e me basedo no que avós, mães e tias faziam antes de termos tantos " rótulos"!!! Isso tem me ajudado bastante!!!!

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  33. Oi Lis, eu também prefiro ouvir as mais velhas da minha família. Na hora do sufoco são elas que me ajudam. Nós temos uma tradição de cuidado de crianças, isso tem que ser reconhecido.

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  34. Muito boa reflexão!
    Acho que nunca tinha parado pra pensar tão aprofundadamente sobre como é opressor tudo isso!
    Talvez porque eu não me sinta realmente oprimida por todas essas vertentes do "ideal" de vida! Eu tenho feito minhas escolhas, lendo sim e discutindo essas diferentes vertentes e rótulos, mas não sigo nada na íntegra. Capto um pouco dali e daqui, junto tudo e faço minha própria versão, dentro das minhas possibilidades, realidade, etc. e tento ouvir meu coração.... Acho que temos que nos fortalecer e acreditar que fazemos o melhor, sempre o melhor, dentro da possibilidade de cada um!
    Muito grata pelo texto!

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  35. Guaciara, amei o texto e citei ele no que eu escrevi porque escrevemos muitas coisas em comum. Você se aprofundou bastante e vou aguardar os próximos...parabéns!

    Ah, esse foi o texto que escrevi: http://vidauniversoeoutrascoisas.blogspot.fr/2015/09/maternidade-opressora-do-k-rai-porque.html

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    1. Fiquei bem surpresa com algumas coisas muito semelhantes que escrevemos, apesar de eu falar de outro lugar e não ter nem de longe a possibilidade de falar pelas mulheres negras. Tinha deixado o meu texto rascunhado no blog e resolvi publicá-lo essa semana depois de muito ver mães oprimidas por esse discurso nos grupos que participo e queria dar um grito de "libertem-se!". Além disso, presenciando aqui na França o modelo de participação do pai na criação dos filhos e do Estado - que não é ideal, mas bem mais interessante que o nosso, inclusive do ponto de vista do trabalhador - a coisa me inquietou mais...vamos conversando!

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    2. É verdade, muita coisa parecida. Também fiquei surpresa. Acho que as mulheres estão começando a perceber que essa criação com apego é uma tremenda cilada.

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  36. Adorei, sério mesmo... Muito interessante! Me fez pensar...

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  37. A única coisa que me deixou com a pulga atrás da orelha foi que num curso que fiz sobre o tema com o Alexandre Coimbra, psicólogo, ele disse que tudo poderia ser "curado", "resgatado" a qualquer momento (não foram essas as palavras, mais foi mais ou menos essa a ideia), o que não bate com a questão do determinismo que você pontuou. Mas concordo que nos textos de internet, há essa ideia determinística de fundo, pairando nas entrelinhas... (Sobretudo um tal pediatra idolatrado por muitos, que não vou lembrar o nome agora e que tem um vídeo muito compartilhado sobre os três primeiros anos, e que vc mencionou - acredito que estamos falando do mesmo pediatra)

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    1. Oi Ray, eu acho que a questão do determinismo bate porque esse psicólogo já parte do princípio que os "estragos" acontecem se você não criar com apego. A incompetente da mãe além de estragar depois vai ter que consertar...
      Sobre o pediatra idolatrado, certamente é o mesmo.

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  38. Ansiosa pela segunda parte do seu texto! 😊
    Parabéns pelo discernimento!

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  39. A coisa é bem séria, não sabia que o Brasil as pessoas estavam levando a sério as teorias do Dr. Sears, até porque há casos bem graves e contestados sobre a adoção das técnicas terapêuticas dele para a criação de vínculos, alguns com consequências trágicas.

    As pessoas tem que estar mais atentas e preocupadas com a importação de correntes teóricas americanas, especialmente as mais controversas e já desacreditadas:

    https://en.wikipedia.org/wiki/Attachment_therapy

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  40. Obrigada.
    Infelizmente a criação com apego do dr. Sears tem virado uma religião aqui no Brasil, principalmente entre as mães de classe média.

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  41. Muito bom! É sempre bom ter uma visão de todos os lados. E o como queremos uma sociedade no futuro é o que podemos fazer no hoje. Ponto de grande importância. Obrigada pela opinião bem fundada e orientada em prol de uma sociedade mais justa.

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  42. Minhas deusas! Agradeço â você profundamente por prestar esse serviço à todas nós! não sou adpta nem da criação com apego e nem de teoria nenhuma. Sou adepta da auto conexão e da conexão com meu filho. E sim fiz uma colcha de mil retalhos de tudo que li, senti e vivi para criar bases totalmente flexíveis como norte para criar meu filho. Esse assunto , da multiplicação dos seguidores de manuais, de adoradores dos novos mestres, tá me incomodando faz muuuuuuito tempo! e digo lá e acolá que tá tudo muito errado nesse dogmatismo. E agora vem você com esses textos belíssimos e muuuuuuuito necessários! PARABÉNS!

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    1. Pois é Leila Garcia. Nós temos nossa história de cuidado e precisamos nos apropriar dela. Parece que agora tudo é novo, que estão começando do zero. Isso não é bem assim não.

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  43. Há tempos eu quero escrever sobre isso, mas é uma reflexão extensa e eu sempre posterguei. Pois bem, você leu meus pensamentos, colocou no papel meus questionamentos e incômodos com esta instituição denominada "criação com apego". Para além da disputa entre mães, o que sempre deixou desconcertada é o quanto esta proposta de criação dos filhos sobrecarrega as mães, é incoerente com a permanência dela no mercado de trabalho, o que leva a uma armadilha psicológica: a de que temos que nos sentir plenamente realizadas com a maternidade. Por fim, serem regras de criação de filhos ditadas por homens (Carlos González, José Martins, William Sears...), que nunca irão sentir na pele as suas receitas para a saúde mental destas crianças. São recomendações que não integram o pai de maneira definitiva na criação de filhos, num mundo pós revolução feminina, que está rediscutindo os papéis de gênero e divisão igualitária de tarefas na família. No fim das contas, sempre me pareceu o mesmo discurso social de que "lugar de mulher é em casa criando os filhos", travestido de psicologização e cientificismo, como você coloca. Mais uma vez, obrigada. Um abraço e não deixe de escrever!

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    1. Obrigada Francielle. Fico feliz em saber que estou conseguindo traduzir o que muitas mulheres gostariam de dizer e estão sendo silenciadas.

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  44. Ahhhh quando li o texto ja me achava contemplada, muito mas esclarecida...e lendo os comentário a gente vai se empoderando cada vez mais!!! Gratidão!!!!

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  45. Muito profundo e lucido seu texto. Amei e me identifiquei, estou esperando a continuação. Fica a sensação de que quero falar isso junto contigo! Vamos em frente! Sua problematização é essencial. E pensar que é uma apropriação cultural e uma psicologização me abriu horizontes, não basta combater a medicalização, mas também uma certa doutrinação que essa busca por teorias e manuais para criação dos filhos causam. É importante identificar as necessidades da infancia e importancia do afeto, mas é também igualmente importante pensar que o sistema opressor e machista vai continuar culpando as mães e mulheres, exigindo mais e mais e as mais pobres e com menos recursos e possibilidades de tempo para a vida nesse formato de cuidado integral com os filhos serão mais culpadas ainda. Enfim, me abriu o olhar o seu texto. Agradeço!

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  46. Foi bem libertador ler isso de outra mãe,me senti até bem por ser expulsa de três grupos ď maternagem...haha.qďo vc aponta privilegios vc é convidada a se retirar por destoar ou desvirtuar o grupo

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  47. Foi bem libertador ler isso de outra mãe,me senti até bem por ser expulsa de três grupos ď maternagem...haha.qďo vc aponta privilegios vc é convidada a se retirar por destoar ou desvirtuar o grupo

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  48. Apesar de eu conhecer muitas mães que praticam essa teoria com muita responsabilidade e sororidade, na Internet vejo muita coisa louca. .
    A teoria da criação com apego está de longe de ser hegemônica. .. Longe mesmo. ..
    O livro do González por exemplo me libertou; pois o mundo me culpava e ainda culpa por minha filha n dormir direto e mamar mt...
    O González deixa bem claro sobre a mãe seguir seus instintos. ..
    É nisso que tenho me baseado. . Institos, alguns artigos e realidade. ..
    A realidade é fundamental. .. muita gente acaba por seguir cartilha. .
    Igual a história do vai passar. .. cara às vezes n passa. .. As vezes precisamos de uma resolução mais drástica. . E fica esse lenga de aguenta que vai passar. ..
    E mulheres se degladiando... Muito mais coisas nos unem do que nos separa...
    Importante é ter respeito entre as maneiras de pensar que são plurais. ..

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  49. Gostei do texto, apesar de não concordar com alguns argumentos que vc usa. Mas, gostei muito mesmo, porque é importante sempre analisarmos os pros e contras daquilo que seguimos ou acreditamos.

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  50. Interessante uma certa incoerencia, no caso do parto humsnizado se o "doutor" falar que tem que ser cesarea é mafia do parto (em outras palavras). Na criacao com apego se o "doutor) falar que esta errado pra que discurir? Entendi rs

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  51. Ha ou houve uma clara ma interpretacao dos principios da criacao com apego. Sobre profissionais que citam mais a mãe que o pai, saiba que é de concordancia total em todos os setores das ciencias que se dedicam a crianca, que SIM o vinculo com a mae nos primeiros 3 anos de vida deixa de uma certa forma "irrisoria" o vinculo com o pai, nao dimuindo nem tornando insignificante um pai por exemplo. Portanto sim, me parece obvio a mae ser citada n vezes mais que o pai durante a primeira infancia. Ganhe mais propriedade no assunto estudando as etapas da criacao com apego inclusive adolescencia, nao veja a coisa "por cima" como se tudo fosse resumido na infancia inicial porque NAO, naoé assim!! Falta conhecimento claro da sua parte!!

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  52. Infelizmente nao a pra continuar a leitura depois desse trecho grotesco "Quando teremos um movimento para que o pai seja pai? E mais, para os avós serem avós, os vizinhos serem vizinhos, as escolas serem escolas, os professores serem professores, o poder público, ser poder público, etc. Até quando só a mãe vai ser responsável por todos os problemas da sociedade? Sim, criar filhos é construir uma sociedade, ou não é?"

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    1. Imagino que deva ser difícil continuar. Deve ser bem desagradável para você ler esse texto.

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    2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  53. Muito bom o seu texto! Exatamente o que eu pens, do início ao fim. Sempre me senti incomodada com diversos pontos da criação com apego. Depois que li mais a respeito dessa escola de pensamento, me certifiquei que não é para mim. Os motivos são exatamente esses que vc mencionou (e mais alguns). Obrigada por compartilhar esse texto conosco :) Sucesso!
    Gabriela

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  54. Muito bom o seu texto! Exatamente o que eu pens, do início ao fim. Sempre me senti incomodada com diversos pontos da criação com apego. Depois que li mais a respeito dessa escola de pensamento, me certifiquei que não é para mim. Os motivos são exatamente esses que vc mencionou (e mais alguns). Obrigada por compartilhar esse texto conosco :) Sucesso!
    Gabriela

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  55. Nossa, estava diante de tanta angústia por ter de deixar meu bebe na escolinha, me sentindo tão oprimida e me deparei com seu texto, maravilhosa reflexão!
    Criação com apego não serve pra mim, obrigada!

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  56. Preciso dizer que chorei lendo esse texto. Sou um homem, branco, homossexual, de classe média, que quer ser pai desde os 16 anos.

    Por mais que eu jamais venha a sofrer a mesma pressão que uma mãe sofre de todos os lados a respeito do que ela deve ou não deve fazer com sua gestação e como conduzir a criação da criança, essa questão em torno do "o que você fizer com seu filho vai impactar a vida dele para sempre" me assombra há um bom tempo. Por mais que eu potencialmente venha a ser visto como uma espécie de 'herói' quando adotar uma criança por simplesmente fazer aquelas coisas que para as mães são 'obrigatórias', essa questão assombra qualquer pessoa que acredita que, no fundo, o amor e o cuidado são coisas bem humanas e intuitivas. Que eles são capazes de transformar a realidade de um ser humano para além de um determinismo científico barato que segue abalando a idéia que não importa se somos homens ou mulheres, mães e pais biológicos ou não, somos capazes de cuidar e amar alguém ao nosso modo, com todas as nossas limitações, e ainda assim criar um ser humano decente, que ame e que seja amado.

    Muito obrigado, e parabéns pelo texto.

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  57. Texto maravilhoso, excelente reflexão. Li muito sobre criação com apego, disciplina positiva, cama compartilhada, livre demanda, etc. Busquei praticar alguns dela. Estava com depressão pos parto e não sabia. Muita informacao, muita cobrança, sem ajuda, apenas do pai. Para piorar meu filho era alérgico ao leite. Até 1 ano ele não saia do colo. Era uma superprotecao, um cuidado extremo. Enquanto eu parecia um bico das cavernas! Hoje vejo que exagerei. Vejo as novas mães repetindo o mesmo e enlouquecerem! E hoje falo que: no relacionamento e criação do filho, bom é quando é bom pra os dois!

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  58. Muito bom, Beatriz!
    Há tempos eu me incomodava com essa questão. Eu também sou mãe e tenho um blog materno. Participo de um grupo de criação com apego no Facebook. Já aconteceu algumas vezes de eu tentar compartilhar experiência e ficar no vácuo, falando sozinha, enquanto que outras mães fazem uma pergunta corriqueira e têm dezenas de comentários. Concluí que o problema é que eu não faço parte daquela roda, apesar de ter sido aceita no grupo. Ora, eu não sou doula, nem professora de Yoga, nem comercializo os produtos naturais e politicamente corretos como uma "empreendedora materna empoderada", como se diz por lá. Eu sou só uma mãe comum, escrevo sobre as minhas experiências e sobre a minha profissão, que é moda...Ôpa! Eu sou designer de moda, então devo ser super mal vista pelos "diferentões" que são contra o consumismo. Mas essa é só a minha profissão. Eu sei projetar uma roupa e orientar a sua produção, só isso. Mas sinto que sou discriminada pela minha profissão. Porque pra entrar nessa roda eu teria que fazer eu mesma, de forma artesanal, fraldas ecológicas na minha casa, carregando a minha filha no sling o dia todo. Mas infelizmente eu tenho que pagar contas e fralda ecológica não vende. Eu iria passar fome. Será que alguém me entende? Não, eu não tive doula, não montei um quarto montessoriano para a minha filha, não usei sling, porque me dava dor nas costas. Não fui aceita nessa panelinha, mas sou mãe e crio a minha filha com amor e apego, independente disso.

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  59. Uau, que texto delicioso de ler e refletir. Fui sua aluna no CPV e hj faço mestrado em Psicologia Social.Seu texto foi indicado em uma aula e quando me deparei com esse reencontro fique emocionada. Infelizmente algumas áreas contribuem muito para esses disparates, mas vamos aos poucos tentando desconstruir. Sua reflexão foi ótima e com certeza vai diminuir a culpa em muitas mulheres.

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